terça-feira, 11 de novembro de 2008

A VOZ DO SENHOR

Gerald N.Lund

Hoje eu gostaria de falar a vocês sobre um assunto da maior importância para toda pessoa aqui. É um assunto que é especialmente importante para vocês que são jovens e estão enfrentando algumas das decisões mais importantes da sua vida – missão, educação, carreira, casamento. O assunto é revelação pessoal, ou seja, ouvir a voz do Senhor.
Quando somos batizados e confirmados membros da Igreja, somos confirmados a receber o dom do Espírito Santo. Quando pensamos sobre isto, vemos que é um dom incrível. Imaginem receber um membro da deidade como nosso companheiro pessoal. Nós somos ensinados que a nossa missão na vida é “vir a Cristo e sermos aperfeiçoados nele” (Morôni 10:32). Mas isto não é uma coisa simples. A vida é complexa demais para que exista um livro de regras que cubra todo tipo de situação. Ao invés, o Senhor nos deu o Espírito Santo para servir como nosso professor, vigia, mentor, e guia.
Eu acredito que um dos desafios mais importantes da nossa provação mortal é aprender a ouvir, reconhecer, e depois seguir a voz do Senhor. Eu gostaria de repetir isto novamente: Um dos desafios mais importantes – se não o mais importante – para aprendermos como vir a Cristo e sermos aperfeiçoado nele são aprender a ouvir, reconhecer, e depois seguir a voz do Senhor.
Parte deste desafio é que existe algumas vezes confusão na mente de alguns sobre revelação pessoal. Outros têm perguntas importantes sobre como acontece ou sobre como ela é . Vocês já ouviram minhas declarações como esta: “Como posso saber se uma impressão é mesmo do Senhor ou se é somente minhas próprias emoções?” Ou “Eu nunca tenho experiências espirituais.” Ou “Eu orei várias vezes sobre este assunto. Porque o Senhor não está respondendo?”
Deixe – me dar um exemplo de como a área da revelação pessoal pode às vezes tornar-se confusa. Quando eu estava ensinando as classes do instituto de religião no sul da Califórnia, raramente houve um semestre que passou sem que eu tivesse uma experiência assim: Um dos meus alunos vinha até mim (geralmente uma moça) e contava que o rapaz que ela estava namorando (às vezes seriamente, às vezes casualmente) tinha recebido uma “revelação” de que eles deveriam se casar. Eu não peço que levantem as mãos àqueles dentre vocês aqui que já ouviram uma declaração semelhante, mas eu sei por experiência própria, que têm muitos. Carlfred Broderick, um renomado terapeuta de famílias SUD, classificou estas declarações como “revelações hormonais” (Carlfred Broderick, One Flesh, One heart: Putting Celestial Love into Your Temple Marriage / SLC: Deseret Book Company, 1986, p. 21)
A coisa mais interessante para mim é que a moça se sentia intimidada por tal declaração, achando que ela deveria aceitar a “vontade do Senhor” mesmo tendo achado a idéia um pouco desagradável. [Em alguns casos a idéia era bem desagradável.] Algumas chegaram a se chocarem um pouco quando eu expliquei abertamente que a não ser que elas recebessem uma confirmação individual do Senhor, elas não deveriam sentir-se pressionadas a aceitar o pedido do rapaz .
Hoje eu gostaria de falar a respeito de três perguntas sobre revelação pessoal:
1. Como é a voz do Senhor ?
2. Como posso distinguir entre revelação verdadeira e falsa?

3. O que posso fazer para aumentar minha capacidade de ouvir, reconhecer, e seguir a voz do Senhor?


Pergunta 1: Como é a voz do Senhor?

Existem duas escrituras em Doutrina e Convênios que são particularmente úteis para descrever como é a voz do Senhor e como ela trabalha com nós. A primeira está na seção 85, onde o Senhor diz: “Sim, assim diz a voz mansa e delicada, que sussurra e penetra através de todas as coisas” (D&C 85:6).
Observem as frases descritivas usadas aqui. A voz é mansa; é delicada. E ela sussurra . Quando analisamos bem tal descrição, torna-se evidente que ouvir a voz do Senhor tem desafios inerentes. Seria muito mais simples se o Senhor falasse com uma voz de trovão ou usasse um microfone com caixas de som de 80 megawatts de potência. Desta maneira não haveria dúvidas. Mas ele não faz assim. Ele sussurra. A sua voz é mansa e suave. O Elder Boyd K.Packer disse o seguinte sobre a natureza da voz do Senhor:
O Espírito não chama a nossa atenção gritando ou sacudindo-nos com uma mão pesada. Ao invés ele sussurra. Ele se manifesta tão gentilmente que se estivermos preocupados poderemos não senti-lo ...
Ocasionalmente ele insistirá firmemente o suficiente para darmos ouvidos. Mas na maioria das vezes, se não dermos ouvidos ao sentimento gentil, o Espírito partirá e esperará até que nós o busquemos para ouvi-lo. [Boyd
K.Packer, “The Candle of the Lord,” Ensing, January 1983, p.53]
A segunda escritura que nos fala sobre como é a voz do Senhor se encontra na seção 8 de Doutrina & Convênios, uma revelação dada através do Profeta Joseph Smith para Oliver Cowdery. Nesta seção o Senhor definiu o que é revelação e como ela vem: Sim, eis que eu falarei à tua mente e ao teu coração, pelo Espírito Santo, que virá sobre ti e habitará em teu coração.
Agora, eis que este é o espírito de revelação. [D&C 8:2-3] “A tua mente e ao teu coração” – pensem sobre isso por um momento. Se o Senhor fala à nossa mente, de que forma seria? Podemos provavelmente descrever a sua mensagem vindo a nós na forma de “pensamentos.” Se ele fala aos nossos corações, podemos descrever como “sentimentos.”
Pensamentos e sentimentos – estes são os meios mais comuns pelos quais o Senhor dá revelações pessoais a seus filhos. E por este mesmo motivo existe um outro desafio. Cada um de nós é uma fonte inesgotável de pensamentos e sentimentos. Todos os dias nossas mentes estão constantemente ocupadas com pensamentos, e nós estamos cheios de emoções diversas. No meio desta torrente de pensamento e sentimento, o Senhor de tempos em tempos insere um pensamento ou um sentimento que vem dele. Como sabemos a diferença? Revelação é raramente precedida pelo ribombar de um tambor ou por um anúncio do tipo “O pensamento ou sentimento a seguir virá do Senhor.”
Existe ainda uma outra coisa que precisamos observar quando falamos sobre como é a voz do Senhor. Tem a ver com revelação que não vem do Senhor. Vejam o que o Elder Packer disse sobre falsas revelações: Estejam sempre alerta para que não sejais enganados por inspiração proveniente de uma fonte imprópria. Vocês podem receber mensagens espirituais falsas.Existem espíritos enganadores assim como existem anjos enganadores...
A nossa parte espiritual e a nossa parte emocional estão tão fortemente ligadas que é possível confundir um impulso emocional por algo espiritual. Nós ocasionalmente encontramos pessoas que recebem o que eles assumem ser impressões de Deus, quando tais impressões são baseadas em emoções ou vem do adversário.[Packer, “Candle”, pp.55-56]
Se alguma coisa é falsificada, significa que ela imita o original tão bem que fica difícil distinguir qual é o verdadeiro e qual é o falso. O mesmo acontece com falsas revelações . Superficialmente pode parecer real. Pode parecer que vem do Senhor. Nós podemos até ter fortes sentimentos sobre o que recebemos. Mas só isso não é prova suficiente que a revelação veio do Senhor. Observem que o Presidente Packer nos adverte para que estejamos sempre alerta para não sermos enganados por nossas emoções ou por revelações vindas de uma fonte imprópria. Tal admoestação nos sugere que revelação falsa não é uma coisa tão rara.
Isto não deveria surpreendê-los tanto, deveria? Se vocês fossem Satanás e soubessem que revelação pessoal era absolutamente essencial para uma pessoa se esforçando para vir a Cristo, você não tentaria semear confusão e decepção sobre o assunto? Isto nos leva à nossa segunda pergunta.

Pergunta 2: Como posso distinguir entre revelação verdadeira e revelação falsa?

Revelação pessoal vem de muitas maneiras e formas diferentes. Pode variar de uma pessoa para outra , e portanto torna-se difícil estabelecer regras rígidas que cubram toda situação. Mas o Senhor não nos deixou sem orientação sobre este assunto. Através das escrituras e de declarações dos profetas modernos, nós encontramos princípios que nos ajudam a determinar como saber se a revelação vem do Senhor ou de alguma outra fonte. Eu gostaria de ressaltar cinco destas orientações ou princípios para vocês hoje. Existam outros, mas estes provaram ser especialmente útil para mim.

Principio 1: É o Senhor que determina todos os aspectos da revelação.

Por definição, revelação é a comunicação da mente e da vontade do Senhor com os seus filhos. Se vocês pensarem sobre isto por um momento, então vocês entenderão que revelação é sempre unidirecional. Vem somente de Deus para nós. Nós podemos nos comunicar com Deus através de um processo bidirecional, mas revelação sempre vem por uma só direção. Nós nunca revelamos nada para Deus.
Já que toda revelação vem do Senhor, então é compreensível que ele deva estabelecer todos os parâmetros da revelação. Tais parâmetros incluem (a) para quem a revelação é dada;(b) qual o conteúdo da revelação;(c) quando a revelação vem; e (d) de que forma a revelação é dada. Às vezes, com as melhores das intenções, nós inadvertidamente procuramos dizer ao Senhor como Ele deveria conduzir o seu trabalho. Podemos sentir uma urgência sobre um assunto e pressionar o Senhor para dar-nos uma resposta dentro de um certo prazo. Ou nós podemos desejar tão fortemente um tipo específico de manifestação, tal como uma forma dramática de revelação, que não nos contentamos com nada diferente. Podemos tentar dizer ao Senhor como resolver nossos problemas ou que resposta gostaríamos de receber. Mas estas escolhas não são nossas. Todos os aspectos da revelação são determinados pelo Senhor.
O Elder Packer advertiu – nos sobre tentar forçar coisas espirituais: Não é sábio lutar com revelações com tanta insistência a ponto de exigir respostas imediatas ou bênçãos a nosso gosto. Não podemos forçar coisas espirituais. Palavras tais como compelir, pressionar, constranger, exigir, não descrevem os nossos privilégios para com o Espírito ... Podemos sim criar um clima para promover crescimento ...; mas não podemos forçar ou compelir ...[E então vem este aviso:]...Não tente forçar isto ou você abrirá o caminho para ser desviado. [Packer, “Candle,” p.53]
Observem que ele diz que podemos criar um clima que promove crescimento espiritual. Através de atos apropriados podemos influenciar o processo de revelação. Podemos estudar e orar, ocasionalmente podemos adicionar o jejum às nossas orações, podemos apresentar ao Senhor os nossos anseios, podemos guardar convênios sagrados – tudo isto ajudará a criar um clima favorável ao crescimento espiritual. Mas precisamos lembrar que quando tudo isto foi feito, depende do Senhor determinar quando a revelação vem, quando é dado, o que é revelado, e para quem .
Em conecção com o princípio que Deus determina todos os aspectos da revelação, eu gostaria de expor dois outros pontos. O profeta Jacó ensinou um princípio simples com estas palavras: “Portanto irmãos, não tenteis dar conselhos ao Senhor, mas sim, recebei conselhos de sua mão.” (Jacó 4:10). Pensem sobre isto por um momento. A sabedoria de Deus é infinitamente maior do que a nossa. Seu conhecimento é infinitamente mais completo. Quão tolos somos quando presumimos que podemos dizer como ele deve fazer o seu trabalho.
Existe também grande sabedoria no que alguns têm chamado o princípio do Gethsemane. Com o maior do merecimento e a mais profunda das súplicas, o Senhor pediu a seu Pai no Jardim do Gethsemane para remover a amarga taça do seu sacrifício que estava por vir. Mas o seu requerimento foi seguido imediatamente por estas profundas palavras: “Todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39). Isto deveria ser parte de toda oração que pronunciamos, todo pedido que fazemos ao Senhor. Nesta frase simples está a chave para desenvolvermos o desejo de deixar o Senhor decidir o que é melhor.

Principio 2: O conteúdo de uma revelação é mais importante do que a forma na qual ela vem.

Um outro erro que alguns de nós cometemos é desejar as formas mais dramáticas de revelação. Deus revela sua mente e vontade para os homens através de um amplo espectro de experiências. Estas podem variar desde as bem diretas às bem dramáticas: a aparição de seres divinos, visões abertas, fogo dos céus. Ou elas podem ser bem sutis: premonições silenciosas, pensamentos suaves, um sentimento de paz . Estes últimos exemplos são sem dúvida os mais comuns. Precisamos ser cuidadosos para não achar que somente as formas mais diretas de revelação são válidas. O Presidente Spencer W.Kimball alertou –nos contra essa tendência:
Até mesmo em nossos dias, muitas pessoas ... esperam que se haja revelação ela virá como uma manifestação tão estarrecedora a ponto de fazer tremer a terra ...
Arbustos queimando- se, montanhas esfumaçaram ..., os Cumorahs, e os Kirtlands foram realidades; mas foram também exceções. O mesmo volume de revelação que veio para Moisés e para Joseph vem para o nosso profeta atual de uma forma menos espetacular – através de impressões profundas, sem espetáculo ou glamour ou eventos dramáticos.
Sempre esperando o espetacular, muitos deixarão passar completamente desapercebido o fluxo constante de comunicação revelada. [Spencer W. Kimball, CR, Munich Germany Área Conference, 1973,pp76,77]
Nós precisamos aprender a nos contentar, não somente com o que o Senhor decide revelar-nos, mas também com a forma que ele escolhe para mandar –nos tal revelação. Como o Elder Packer advertiu, se tentarmos forçar para que uma manifestação espiritual seja de acordo com o nosso agrado, abriremos o caminho para sermos enganados.

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